A preservação das raízes musicais do Vale do Neiva.

Os dias passam, os meses passam, os anos passam, enfim o tempo passa, e não há nada neste mundo onde esta passagem implacável não tenha os seus efeitos. É nas pessoas, nas animais, nas plantas..! “Todo o mundo é composto de mudança, tomando novas qualidades” como diz Camões.

A sociedade transforma-se a alta velocidade, consequência da evolução da ciência, da tecnlogia, das novas ideias, dos novos valores. E aquilo que víamos, ouviamos, sentiamos e até cheiravamos há uns anos a esta parte, tem desaparecido totalmente ou existe, noutros casos, apenas alguns resquícios. Na realidade, na nossa região – o vale do Neiva –  aquelas melodias que, ainda há uns 30/40 anos, ouviamos de forma genuína, autêntica e espontânea ,pelos campos, nas festas, no monte, no rio, teriam desaparecido, não tivesse sido o “deitar a mão” de pessoas que trabalham de forma empenhada para manter essas cantigas tão lindas, tão ricas em quantidade e em qualidade.

Entre muitas entidades e associações, destaco aqui a Associação do Vale do neiva Património e Ambiente que, através da sua renovada secção de cantares, dá vida à vasta tradição musical popular, através do grupo “Modilhas do Neiva”. Um grupo recente, mas que apresenta já um trabalho digno de louvar, como pôde verificar quem assistiu ao espetáculo realizado em julho, em Tregosa, junto ao rio Neiva.

As melodias são as mesmas dos seus antepassados que alegraram campos, festas, capelas, ermidas, feiras, rios, ribeiros e montes. As temáticas musicais sempre ligadas às lides diárias. No entanto, destaco aqui a figura feminina, a rapariga, a donzela e a mulher que perpassa todo um mundo afectivo e sentimental . Toda uma psicologia da moça que vai à erva, ao rio à fonte, à igreja e que exprime seu sua ingratidão para com o namorado , “tu ficas na tua quinta”; o António da loja nova que “morre por ser o seu bem”, pois se o ama “tem guerra e se o deixa tem dor”; a linda morena em que a “flor do mato é doce …e quem dera adivinhar as manhas que os homens têm”; a Celeste, filha de um pobre barqueiro, e que leva a vida na praia do mar; a moça que espera o namorado pelo luar mas que não aparece; as sogras que têm raiva por namorar o filho; a desilusão do casamento, “casei-me por um ano pra ver a vida que era , o ano vai acabando, solteirinha quem me dera”; os conselhos para fugir aos perigos do amor, “foge, foge, andorinha, não te deixes apanhar”; a alegria ao lavar a roupa da “nossa lavadeira que vai à Neiva lavar e põe a roupa a corar”; o Antoninho muito cobiçado, “quem casar com Antoninho come doce toda a vida”;as desfolhadas onde as raparigas vão todas lavadas; a bonitinha que deita cordões ao pescoço; a Laurindinha. a quem aconselham procurar o marinheiro; a mãe que não deixa falar com o Manuel, “ó que lindo manuel qu’inda agora aqui passou, eu queria-lhe falar, minha mãe não deixou”; a renúncia ao encontro “Ó detrás da larangeira, bem te podes ir embora, o meu pai não vai pra cama, eu não posso ir lá fora”; o rapaz que a trocou por outra mais bonitinha, uma vez que a aia é mais travadinha; o tratamento canino do amor “o meu amor é um cão só me namora a ladrar”; o pai que não quer que a filha vá à monda só para namorar, etc, etc, etc. 

É na verdade de uma enorme riqueza a temática feminina destas Modilhas que felizmente foram recolhidas e têm sido transmitidas pela secção de cantares da Associação Vale do Neiva – A Mó.

O grupo “Modilhas do Neiva” ainda é uma criança, contudo pretende ser jovem e chegar a adulto, na preservação dum património fonográfico milenar, que ao fim e ao cabo é a alma de um povo – o povo do vale do Neiva.

São músicas que eu ainda me lembro de quando era criança, que aos mais novos nada dizem, mas para eles são! Melodias da tradição popular, arreigadas às vidas passadas que, felizmente, são recantadas pelos filhos desse mesmo povo!

AdeLino Queirós